RITA VELOSA - ESCRITORA BRASILEIRA 
Sites Grátis no Comunidades.net
ALGUNS CONTOS DA AUTORA
ALGUNS CONTOS DA AUTORA

                Flavinha Guaraná

      Favela do Limão, São Paulo, capital, seis horas da manhã.

          __ Flavinha, toma um pouco desse guaraná que guardei para você, minha filha!

          __ Ah, mãe, depois eu tomo leite lá na escola. Melhor dar o pão e o guaraná para o Serginho.

          __ Não, filha, pode tomar! Tem mais um pouquinho guardado para o Serginho. Só não tem leite mesmo.

          __ Quero não, mãe. Já estou atrasada. Depois perco o ônibus e a coisa complica. Tenho trabalho para nota para entregar hoje na escola. Como lá.

          __ Está bem, Flavinha. Vai com Deus, então! Mamãe te ama muito. Cuidado tá?

          __ Tá, mãe! Fica tranqüila! Te  amo também. Tchau!

          Saiu apressada pelo beco estreito carregando o material escolar cuidadosamente junto ao peito. Treze anos e já marcada pelo trauma da violência.

          Os olhos vão bem abertos, movendo-se em todas as direções perscrutando o ambiente, amedrontados. Já tivera amigas estupradas naqueles becos e morria de medo de que o mesmo acontecesse com ela. Religiosa, começou mentalmente a recitar o salmo que já sabia de cor:

          __”O senhor é meu pastor... ainda que eu ande... etc. etc.

          Ufa! – um suspiro aliviado – Chegou à rua larga, com calçamento, na boca da favela, por onde passava o ônibus que a levaria até a escola, distante uns trinta quarteirões.

          Usava passe escolar fornecido pela prefeitura. Mas o passe de um dia não valia para o dia seguinte. Nem havia como economizar. Se houvesse um jeito, Flavinha até arriscaria ir a pé para trocar o passe pelo leite, para o irmãozinho. Tomar guaraná não devia ser tão saudável para um menino de quatro aninhos.

          Estavam em quatro garotas no ponto de ônibus quando o tiroteio começou. Foi tudo muito rápido: suas amigas, Camila, Morgana e Cilene jogaram-se entre um monte de entulho e o muro, atrás do poste. Flavinha também. Daí notou o trabalho caído na calçada, perto dela. Esticou o braço e o corpo todo para recolher o trabalho que o vento ameaçava levar.

          Conseguiu agarrá-lo, mas nesse instante sentiu tudo escurecer de repente. Não viu, nem sentiu mais nada, atingida em cheio na cabeça por uma bala perdida.

          De repente, tudo silenciou. O tiroteio entre traficantes e policiais terminou assim como começou. Tudo voltara ao normal. As meninas saíram detrás do monte de entulho. Chamaram por Flavinha. Mas ela não podia mais responder. Jazia morta, com a cabeça estraçalhada, em uma imensa poça de sangue.

          Flavinha agora era apenas parte da estatística. Era mais uma entre as centenas de crianças brasileiras vitimadas pelas balas desgarradas de uma guerra quase que silenciosa travada  todos os dias entre milícias e traficantes, policiais e traficantes e entre traficantes e traficantes.

          De onde partiu o tiro? Isso é o que menos importa. A pergunta certa seria: até quando?

****************************************************************************************

Bicho-Homem                                                                             

             O silêncio era paradisíaco. Não ventava. Tudo estava perfeitamente estático, totalmente imóvel. Era com se a floresta estivesse petrificada ou como se fosse apenas um registro de um passado distante, um “Flash-Back”, como uma foto de milhares de anos atrás.

            Eu observava as dezenas de verdes. Aquela aquarela era impressionante: do mais profundo ao mais tênue verde. E as folhas então? Eram centenas de formas e tamanhos: tudo tão esteticamente espalhado e misturado que com certeza me deslumbrava.

            A floresta era a obra de arte perfeita diante de meus olhos. Nem Van Gogh conseguiria tanta cor e tanta luz. Nem Michelangelo criaria tamanha perfeição de traços e formas. Nem Da Vinci produziria tal mistério e encanto.

            Enquanto eu caminhava em direção ao rio, a mata roçava meu corpo acariciando minha pele e eu podia sentir as diferentes temperaturas das folhas, as diferentes texturas da vegetação rasteira.

            Sentia-me orgulhoso de fazer parte do paraíso! Eu também deveria ser uma obra prima senão não faria parte da paisagem. Senti felicidade e plenitude.

           Aproximei-me do rio. Podia escutar então a sinfonia da água batendo nas pedras e pedriscos, roçando as folhagens ribeirinhas, respingando nos arbustos escorrendo e pingando de volta para o leito do riacho, produzindo uma percussão suave. De repente um pequeno pássaro começou a trinar uma melodia relaxante e sensual. Saudava a manhã que chegava. Não podia ver o sol, dali, do meio da mata. Mas seus raios penetravam entre as árvores formando uma cortina de luzes, como se houvesse centenas de “Spots” direcionados em diagonal clareando tudo.

           Comecei a sentir então um gostoso calor pelo meu corpo e me aproximei da água para beber. Vi então minha imagem na água límpida e percebi em meus olhos o êxtase de paz e prazer.

           Subitamente senti um estalo estranho, depois outro e outro e outro. Já conhecia aquele som aterrorizante. Meu coração disparou de terror. Paralisei! Depois disparei a correr perdido pela mata sem saber para onde ir, onde me proteger.

           Ao meu redor tudo ardia, tudo era fogo! Meu paraíso de repente transformara-se no inferno! Tudo ia ficando negro e desabando entre as chamas e a fumaça. O cheiro de couro, carne e penas queimadas era insuportável! A fumaça ia me deixando zonzo e sufocado. Sabia que havia chegado minha hora; a minha e de meus companheiros.

           Infelizmente, percebi que aquele animal irracional, altamente agressivo e perigoso, predador imbatível, chamado homem, deveria ter chegado ao nosso paraíso para destruí-lo e possuir nossos restos mortais. Nossa mãe, a Terra, estava mais uma vez sendo estuprada com violência e crueldade.

           Enquanto corria, vi ninhos com ovos, ou com filhotes ardendo em chamas. Vi orquídeas queimando. Toda a floresta gritava de dor e pavor! Dante e Nero imperavam!

           Foi assim que minha espécie se extinguiu. Eu era o último sobrevivente. Agora, não mais existimos na Terra.

          Talvez tenha sido melhor assim: conviver com o bicho-homem seria muito triste e desonroso!

           Nenhum homem jamais me classificou. Eu era de uma espécie não conhecida. Pena que o bicho-homem não tenha me valorizado, nem tentado me conhecer e preservar... Ele iria descobrir o papel essencial que eu exercia para a manutenção da vida saudável na Terra     Agora é tarde! Já era! Meu nome? Que importa? Não existo mais...

**************************************************************************************

         A Noiva Virgem.

 

Maria das Graças, loirinha de olhos azuis, corpo perfeito, beleza inigualável, vinte e dois anos, pura, virgem dedicada plenamente a Nossa Senhora das Graças.

Todo dia ao alvorecer, atravessava a rua e entrava na capela dedicada a Nossa Senhora e a lavava com esmero. Colocava flores no altar e ali permanecia cerca de uma hora a rezar. As quartas comandava a novena das Filhas-de-Maria do bairro rural e aos domingos ia ajudar nas três missas, nos casamentos, batizados e crismas. Era também a professora de catecismo do lugar.

Como o bairro rural era meio distante da cidade, fornecia também as refeições aos padres que vinham realizar as cerimônias; fosse ele quem fosse. Levava-o para a casa de sua mãe. Também era a responsável por lavar, passar e engomar os paramentos dos padres e as toalhas do altar.

Fazia isso desde os nove anos de idade. Aos dezoito apaixonou-se por João Pedro. Namoraram, noivaram e marcaram o casamento para o dia 13 de Maio. A emoção de Maria das Graças era muito grande. Atravessou a rua vestida de noiva, adentrou a capela pelos braços de seu pai e caminhou lentamente em direção ao altar onde João Pedro a esperava, extasiado pela sua beleza.

Despediu-se do pai com um beijo, recebeu outro beijo de João Pedro e caiu diante do altar. Um ataque fulminante do coração! A emoção fora demais. Veio o socorro, tentaram reanimá-la, mas nada mais adiantou. Estava morta!

Como homenagem a sua pureza e dedicação à Virgem Maria, a família e o noivo decidiram enterrá-la em caixão branco e vestida de noiva. Missa de corpo presente, velório e depois o enterro com praticamente todos da comunidade rural. Maria das Graças era muito querida.

No dia seguinte, uma das Filhas de Maria chegou à capela logo cedo para fazer o trabalho de Maria das Graças. Ao abrir a porta, desmaiou de susto: o caixão branco estava diante do altar, aos pés de Nossa Senhora. Toda a comunidade acorreu estupefata!

Nova missa, novo enterro.

Segundo dia: de novo o caixão branco com Maria das Graças aos pés de Nossa Senhora!

 Nova missa, novo enterro.

Terceiro dia: Maria das Graças, vestida de noiva, em seu caixão branco aos pés de Nossa Senhora, em frente ao altar!

Nova missa, novo enterro. Só que desta vez, ali mesmo, atrás do altar, aos pés da Virgem Maria.

Hoje, a população do lugarejo venera a beata, que dizem, já realizou vários milagres. Pelo jeito temos santa nova no pedaço!

            

*********************************************************************************************                                                                              

 

 

 




Total de visitas: 20945